27.10.06

A Maria vivia mal, talvez no mal. A pobreza extravasava na penitência diária de contar os trocos. Eram os transportes para o trabalho precário que lhe levavam mais moedas. Só depois se lembrava de matar a fome. A lista de prioridades era a que se podia arranjar.
Habitava um "bairro problemático". A avó, velha das rugas fundas que lhe delineavam o rosto, fazia da existência uma cama do 1º esquerdo, num quarto húmido e desprovido de algo mais que o essencial. Escapava a decana da casa considerar, já que à filha não o soube ensinar, que a Cruz pertencia ao rol das coisas imprescindíveis. Encimava o leito, dominando o espaço.
Do pouco que alegrava a Maria tudo se resumia aos encontros escondidos. Eram segredo de adolescência, fundido na pueril experiência do companheiro da aventura. Uma escapada nocturna que aproveitava o estado imóvel da avó. Juntavam os corpos no vão da escada - os vizinhos não tinham mais para onde ir - clamando à sorte não haver consequência de maior.

Passaram dois anos e tudo se mantinha. A excepção vinha da boca do médico: "está grávida". A Maria recordou todos os receios que a afligiam naquelas noites com o Zé mas não encontrava registo de temer esse fim. Ficava-se pela repreensão da avó, nunca teria chegado ao longe de colocar a hipótese que lhe acabavam de comunicar. Contou ao pai, depois à velha... falaram... discutiram... bofetearam... concluíram: "aborta que agora já se pode fazer isso".
Foi uma correria ao hospital. Chegaram, sentaram, aguardaram, disseram ao que vinham e viram que não eram os únicos. Caras desesperadas, a ver hipotecado o futuro ainda incerto, a lamentar o devaneio do momento irreflectido. Uma ou outra menos preocupada, quem sabe sem querer saber, fumava um cigarro que alguém lhe dava... estava sozinha. Chamaram a Maria. Entrou num gabinete, novamente um médico: "vão passar as dez semanas de gravidez até chegar a sua vez". A margem de erro era de uma semana. "Já vai ter ai um ser humano", rematou.
Voltaram a casa. Caiu-lhes o mundo em cima na impossibilidade de manter o filho. Pensaram, e novamente concluíram: "pede dinheiro ao estado, eles disseram naquela coisa do referendo que agora se podia fazer, não temos culpa do hospital não ter vaga a tempo".

Passaram dois meses. Chegamos a casa, ligamos a televisão e esbarramos com José Sócrates: "O caso da Maria é exemplar! Com a indemnização que lhe demos vai poder criar o seu filho. Para aqueles que diziam que o sistema nacional de saúde não daria uma resposta eficaz, pois têm agora a nossa efectiva resposta. Resolvemos este caso como resolveremos todos os outros semelhantes. Aliás, quero aqui deixar bem claro que é esta uma medida de incentivo a que não se pratique o aborto após as dez semanas. É crime! E como a Maria, muitas outras mulheres serão ajudadas a não o cometer. Estamos no rumo certo! Viva Portugal."

Passaram mais dois anos. A televisão anuncia: "A Assembleia da República aprovou hoje a realização de um referendo ao aborto. A pergunta terá como objectivo questionar se os portugueses concordam com a despenalização total do aborto"...

2 Comentários:

Blogger pedro guedes disse...

Grande texto!

13:22  
Blogger Simão dos Reis Agostinho disse...

Deus queira não seja a verdade do futuro!

abraço caro Pedro

00:56  

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