21.3.07

Colecção de repúblicas?

Acabo de saber que a candidata presidencial francesa, Ségolène Royal, propôs recentemente a criação de uma VI República em França o que não deixa de ser caricato tendo em conta um regime que, para além de ir já na sua quinta versão, se auto considera o “State of the art” das instituições políticas. As propostas da candidata fazem-me pensar numa canção italiana, creio que dos anos 60, que começava “Parolle, parolle, parolle….” Será que essa senhora, cuja colossal vacuidade mental é assustadora, sabe do que fala ao referir-se a uma hipotética VI República? Quanto tempo mais vai a França fazer colecção de repúblicas? Até chegar à VII, ou VIII, ou à IX, “tant qu’à faire”? A França já esgotou todas as formas possíveis de república, inclusive o presidencialismo puro durante a II República (1848-1852) e que tornou possível o auto-golpe de Estado de Napoleão III. Invoca-se por vezes, lá como cá, o mito do presidencialismo, esquecendo-nos de que este apenas tem funcionado nos Estados Unidos num contexto politico totalmente diferente do da Europa. Desde a queda da Monarquia a França não mais conseguiu reconhecer-se numa instituição legítima. A França tem, acima de tudo, uma profundíssima crise de regime e, com ela, de toda uma série de mitos jacobinos que lhe são consubstanciais e que a queda do Muro veio por em cheque e mesmo a condenar inevitavelmente ao colapso. O grande drama da França e de grande parte dos franceses é o de reconhecer que aquelas instituições, sobre as quais lhes é dito e incutido na escola desde a mais tenra idade que são as melhores do mundo, são na realidade um rotundo fracasso e acima de tudo, mas não só, uma forma institucionalizada de saque aos contribuintes. É isto a “République à la française” e, já agora, também à portuguesa. Isto num país que se considera um modelo, devendo por isso ser olhado pelos outros e não olha-los, é muito difícil de engolir. No fundo o dilema que se coloca à França é simples: ou o regime ou a França. Acredito que, no imediato, não seja a esta a questão que está em cima da mesa mas ela acabará por colocar-se dentro de relativamente pouco tempo quanto mais não seja devido à sua monstruosa dívida pública que já absorve 66% do PIB. Há um livro excelente que li no ano passado e que se chama “La république une affaire française” de Chantal Delsol que retrata muitíssimo bem toda a problemática associada ao regime e como este necessita de se reestruturar respeitando o princípio da subsidiariedade, isto é, evoluir para uma forma mais federal, o problema é que isto é incompatível com o regime actual. Além disso a França precisa de fazer uma psicanálise do seu passado. A história está a prestar homenagem a um dos mártires da Revolução: Luís XVI. O Evangelho do passado Domingo falava-nos da Parábola do Filho Pródigo creio que há algo de “filho pródigo” nesta França que, à semelhança deste, começa a estar farta de “chafurdar no lodo e de comer com os porcos”, quando é que ela decidirá “regressar à casa do Pai”? Quem será a personalidade, ou personalidades, e com que legitimidade, para encetar esse regresso? O problema é que não há nada mais difícil no homem do que reconhecer os seus erros, tanto mais que estes duram há já 200 anos (exceptuando o curto período da Restauração monárquica entre 1815-48 com Luís XVIII, Carlos X, o último Rei legítimo, e de 1830-48 com o usurpador Luís Filipe D’Orléans). Sigamos, pois, com interesse as cenas dos próximos capítulos até porque esta o que vier a acontecer terá consequências nos aspectos mais variados quer internos da França, quer externos.

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Caríssimo amigo,

Uma das maiores características das democracias é a incapacidade de se limitarem. Logo a democracia da Sego pode ser no primeiro trimestre a VI, no segundo a VII e no terceiro a XXXIX República. Uma vez que não há laço político para além da vontade, nada impede que cada acção política não seja, ela própria, constituinte e derrogadora de todas as anteriores. Isso só não acontece porque seria muito difícil a economia sobreviver a essa reinvenção diária.

Um abraço

O Corcunda

01:30  

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