11.2.08

Caso Sokal

Num post recente o Corcunda falava-nos do famoso “Caso Sokal”, assim chamado devido ao nome do professor de física da Universidade de Nova Iorque, Alan Sokal, e cujas consequências tanto deram que falar nos meios literários e científicos norte-americanos e europeus. Recordemos, pois, sucintamente os factos. Em 1996 Alan Sokal, farto de ver utilizar abusivamente o jargão científico fora do seu contexto, nomeadamente no das ciências sociais, e, mais grave ainda, sem o mínimo conhecimento do seu significado, decide “pregar uma partida” a esses ilustres "hommes de lettres", como Hannah Arendt lhes chamava e que tanto abominava. Escreveu então um ensaio repleto de citações de muita dessa “fauna” e ao qual deu um título deliciosamente pomposo, se bem que desprovido de sentido, como de resto se impunha: “Transgredir as fronteiras: a caminho de uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”. Para testar a credibilidade da sua impostura enviou o ensaio para uma das mais afamadas revistas do meio literário/universitário norte-americano: “Social text”. Qual não foi o seu espanto quando o texto, não só foi aceite pelos críticos da revista, mas por muitos dos seus leitores, vindo mesmo a alcançar um imenso sucesso, facto esse que surpreendeu totalmente o seu autor que acabou por se sentir obrigado a revelar a sua fraude. Na sequência deste acontecimento Sokal decidiu, juntamente com um físico belga Jean Bricmont, escrever um livro ao qual chamaram “Impostures intelletectuelles” e no qual reuniram toda uma série de afirmações destas “luminárias posmodernas”, com o intuito de as expor ao ridículo merecido. Claro que estas últimas ripostaram fazendo uso dos habituais impropérios, “reaccionários”, “fascistas”, simpatizantes da FN (Front National de Le Pen). Para além desta pequena anedota verídica há uma questão mais profunda e que se prende com o rigor da linguagem que mais não é do que um reflexo da “ordenação mental” e da honestidade de quem escreve. É fundamental distinguir simplicidade e clareza de linguagem do simplismo, não devendo nunca pensar-se que um assunto complexo necessita de uma linguagem hieroglífica. Aliás aquilo que distingue os grandes mestres é precisamente a capacidade de se exprimir de uma forma cristalina. Associada à falta de rigor está frequentemente uma enorme arrogância algo “farisaica” que, no fundo, pretende escamotear uma grande ignorância. Neste tipo de situações lembro-me sempre da I Epistola de S. Paulo aos Coríntios, quando ele diz: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver a caridade, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine”.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial